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Trabalho importa. Mas não tanto quanto fingimos.

Uma reflexão sobre trabalho, identidade e liderança: como manter a ambição sem entregar ao cargo o tempo, as relações e tudo aquilo que somos.

André Lopes|

A gente trabalha como se tivesse tempo infinito.

Planeja carreira para os próximos cinco anos, investimentos para vinte, roadmaps para três, arquitetura pensando em escala, disponibilidade e crescimento contínuo. Tudo isso faz sentido. O problema começa quando levamos essa mesma lógica para a vida e passamos a agir como se também fôssemos infinitamente escaláveis.

Não somos.

Quem trabalha em tecnologia conhece bem o ritmo. Reunião cedo, mensagens acumuladas, projeto atrasado, incidente, cobrança por resultado, conversa sobre promoção, planejamento do próximo trimestre.

A agenda fica cheia.

E, curiosamente, a vida vai ficando vazia.

Não porque o trabalho seja ruim. Eu gosto de trabalhar. Gosto de tecnologia, de construir produtos, de resolver problemas e de ver um time transformar uma ideia em alguma coisa concreta.

O problema é a proporção que damos a isso.

Quem sou além do trabalho?

Uma leitura visual sobre identidade, tempo e cuidado na liderança.

Ver em 7 telas: quem sou além do trabalho?

Quando o cargo começa a explicar quem você é

Pergunte para alguém quem ela é e, muitas vezes, a primeira resposta será o cargo.

"Sou engenheiro."

"Sou gerente."

"Sou diretor."

"Sou Staff."

É compreensível. Passamos boa parte do dia trabalhando e anos construindo uma carreira. Só existe um pequeno detalhe nessa equação: cargos são temporários.

Muito temporários.

Uma reorganização muda a estrutura. Um produto deixa de ser prioridade. Um executivo novo chega com outra estratégia. Uma aquisição acontece. O mercado muda. O governo muda. A empresa muda.

Aquela iniciativa que seis meses atrás era chamada de "prioridade estratégica" pode terminar discretamente em algum arquivo de PowerPoint que ninguém mais abre.

Isso não significa que o trabalho não tenha valor.

Significa apenas que talvez seja arriscado construir toda a nossa identidade em algo que pode desaparecer numa reunião de reorganização na terça-feira às 16h.

Se amanhã sua empresa apagasse seu cargo, quem sobraria?

Estruturas parecem permanentes. Até deixarem de ser.

Existe algo curioso sobre grandes organizações. Quando estamos dentro delas, tudo parece enorme e definitivo.

As estruturas, os cargos, os processos, os indicadores.

Mas empresas nascem e desaparecem. Governos mudam. Sociedades mudam. Tecnologias que pareciam eternas viram legado. Empresas gigantes perdem relevância. Outras surgem de onde ninguém esperava.

A história não demonstra muita paciência com a ideia de permanência.

Nós passamos décadas tentando conquistar posições dentro dessas estruturas. Isso não é necessariamente ruim. O problema aparece quando esquecemos que essas estruturas também estão de passagem.

E nós também.

Tecnologia sabe escalar. Pessoas, nem sempre.

Em engenharia, queremos escala.

Queremos sistemas resilientes, seguros, rápidos, disponíveis e preparados para crescer. Faz parte do trabalho e devemos continuar fazendo isso bem.

O problema é quando levamos essa lógica de crescimento contínuo para tudo.

Mais trabalho, mais responsabilidade, mais dinheiro, mais visibilidade. Sempre existe alguma próxima meta esperando.

"A tecnologia aprendeu muito sobre escalabilidade. Nós ainda estamos tentando entender a ideia de suficiente."

Talvez nem tudo precise crescer o tempo inteiro.

O que não aparece no dashboard

Há uma série de coisas importantes que dificilmente aparecem em uma apresentação executiva.

  • Dormir bem.
  • Ter saúde.
  • Sentar para conversar com alguém sem olhar o celular a cada três minutos.
  • Viajar.
  • Conhecer uma cidade.
  • Entrar no mar.
  • Ouvir música.
  • Comer alguma coisa feita com calma.
  • Conviver com animais.
  • Ter amigos que não são contatos profissionais.
  • Encontrar alguma forma de espiritualidade, para quem isso fizer sentido.
  • Estar com a família.

Nenhum desses itens aumenta diretamente o throughput de uma squad.

Ainda bem.

Dinheiro tem valor real. Ele paga contas, oferece segurança, permite experiências e dá liberdade de escolha. Fingir que dinheiro não importa costuma ser uma filosofia bastante confortável para quem já tem dinheiro.

Mas existe uma diferença entre trabalhar para construir uma vida e passar a vida inteira trabalhando.

Parece uma distinção óbvia.

Nem sempre vivemos como se fosse.

O custo invisível da corrida

As grandes cidades adicionam outra camada.

Milhões de pessoas próximas fisicamente e cada vez mais distantes umas das outras.

Prédios cheios, metrôs cheios, escritórios cheios, agendas cheias.

E relações cada vez mais mediadas por telas.

A competição profissional também ajuda pouco. Quando tudo é performance, comparação e posicionamento, outras pessoas começam a parecer concorrentes.

O colega disputa a promoção.

O conhecido tem um salário melhor.

Alguém no LinkedIn acabou de anunciar que virou diretor aos 32 anos.

Outro fundou uma empresa.

Outro vendeu uma empresa.

Outro aparentemente acorda às cinco da manhã, corre dez quilômetros, lê três livros antes do café e ainda encontra tempo para publicar sobre disciplina.

Talvez ele apenas tenha uma excelente equipe de marketing.

A comparação constante transforma vidas completamente diferentes em uma tabela de classificação imaginária.

E ansiedade é um resultado bastante previsível disso.

Liderança também é cuidado

Existe uma responsabilidade particular para quem lidera pessoas.

Resultado importa.

Prazo importa.

Qualidade importa.

Responsabilidade importa.

Mas as pessoas que trabalham ao nosso lado não são capacidade produtiva representada em uma planilha.

Elas têm pais envelhecendo.

Filhos crescendo.

Relacionamentos começando ou terminando.

Problemas financeiros.

Doenças.

Ansiedade.

Planos.

Medos.

Uma vida inteira acontecendo ao mesmo tempo que o projeto.

Um bom gestor não precisa transformar o trabalho em terapia coletiva. Esse não é o papel.

Mas pode evitar tornar o ambiente mais hostil do que ele já precisa ser.

  • Pode proteger o time de pressão inútil.
  • Pode tratar erros com maturidade.
  • Pode perceber quando alguém está chegando ao limite.
  • Pode evitar transformar urgência em método de gestão.

Cuidar das pessoas com quem trabalhamos também é parte do resultado que deixamos.

Trabalhar sem entregar tudo ao trabalho

Não quero uma vida sem ambição.

Quero construir coisas boas. Resolver problemas grandes. Trabalhar com pessoas competentes. Ganhar dinheiro. Conhecer novas tecnologias. Fazer projetos dos quais eu possa me orgulhar.

Mas também quero ter uma vida.

Essas duas coisas não deveriam ser incompatíveis.

Talvez maturidade tenha menos relação com diminuir nossos objetivos e mais com entender onde cada um deles deve caber.

  • Trabalhar com menos ansiedade.
  • Cuidar da saúde.
  • Ter tempo para relações reais.
  • Estar presente.
  • Conhecer lugares.
  • Experimentar outras culturas.
  • Ouvir música.
  • Ficar perto da natureza.
  • Fazer alguma coisa simplesmente porque gosta, sem precisar transformar tudo em performance, conteúdo ou renda.

E, principalmente, perceber as pessoas que estão ao nosso lado enquanto ainda estão ali.

Porque tempo é uma coisa estranha.

Durante boa parte da vida ele parece abundante.

Até deixar de parecer.

Então talvez a pergunta não seja quanto você conseguiu produzir neste trimestre.

Se amanhã sua empresa apagasse seu cargo, o que sobraria de você?

Quem você ajuda?

Com quem você se relaciona de verdade?

Qual é a sua função na sociedade quando ninguém está olhando seu LinkedIn?

Que problema você consegue resolver fora de uma organização?

Talvez equilíbrio não seja trabalhar menos ou desejar menos.

"Talvez seja simplesmente não confundir aquilo que fazemos durante algumas horas do dia com tudo aquilo que somos."